
Hoje pensei em escrever-te uma carta.
E comecei.
Lembrei-me que gostarias de a receber do bico de um pássaro. O mais azul que encontrar. Será ele que a levará ao teu lugar encantado.
Onde me perco todos os dias. Onde me encontro em cada noite.
Mas, faltam-me as palavras.
A mente fervilha de fantasias, ilusões e amores.
Despe-se de desilusões e desamores.
E as palavras não saem.
Vou arrancá-las uma a uma.
Colá-las na folha branca que te enviarei.
E para que não fujam, tentarei amarrá-las com fitas de seda entrelaçadas de amor.
Tu pegarás nesse pequeno grande papel alvo.
Tentarás decifrar cada enigma nele contido. Tentando afastar evasivas. As minhas.
A tua mão deslizará por ele em busca de marcas que te tenha deixado.
Agárra-las. Fá-las tuas.
Mas as palavras.
As palavras que não saem. As minhas.
As tuas soltam-se com tal fluidez que me fazem dar aquele passo.
Preciso das tuas palavras
E eu das tuas.
Eu. Eu?
Ou a minha Alma?
Sim.
Alimenta-se delas. Agora.
Mas.
Parole, parole, parole
Ecoute-moi.
Parole, parole, parole
Je t’en prie.
Parole, parole, parole
Je te jure.
O que são as palavras?
Poderão elas levar-te o que sinto? Não.
As tuas trazem-me sonhos de azul.
Espalham poeiras de estrelas no meu jardim. De rosas brancas.
Iguais à que me ofereceste hoje. Quando me acordaste pela manhã.
Com um sorriso e um beijo.
E penso nas tuas palavras. As escritas e as não escritas.
Em cartas de fundo azul que me envias todos os dias. Várias.
Onde busco as forças que necessito.
Vêm perfumadas de doçura.
Mas.
Parole, parole, parole, parole, parole
encore des paroles que tu sèmes au vent
Voilà mon destin te parler….
te parler comme la première fois.
E as minhas palavras? Não as encontro.
Nesta busca incessante, sinto-me cada vez mais perdida.
Vislumbro a tua mão alva ao longe. Num aceno que me chama.
Olho-a. Sorrio. Estendo a minha.
Ao sentir que a minha toca a tua. Retiro-a.
O tal passo.
Vou-me.
Regressarei. Quando trouxer nos braços as palavras.
Para te oferecer.
Embrulhadas em beijos.
Deixo cair a folha de papel branco.
Ao longe um pássaro solta um piar de dor.
Tinha penas azul da cor do céu.
E da noite.
Rute Monteiro
26/02/2005
Primeiro veio o chão, em madeira, resistente, silencioso. Andava sobre ele com cuidado com medo de o pisar, não fosse de alguma forma danificar algum pedacinho. Era assim que o via: um delicado caminho por onde os seus pés iriam passar dia após dia. Esse chão iria acompanhá-lo por um tempo indefinido. Os primeiros passos, quando ainda a terra lhe tocava a planta do pé, tinham trazido algumas feridas que achava difícil de curar. Mesmo que não as reconhecesse quando se olhava no espelho ou se analisava em busca da verdade. Mas estavam lá desde tenra idade, quando mal havia começado a andar.
Depois vieram as paredes, assentes nos alicerces que o haviam ajudado a suportar o peso de algumas memórias. Tocava-lhes e sentia o receio de ruírem, mesmo na certeza de que aquelas eram as suas paredes. A vida havia ensinado que do lado de fora, os ventos poderiam despertar instintos maléficos. Diferentes dos seus, mas que teria de saber reconhecer para conseguir proteger-se. Sem se dar conta, fechava-se no seu mundo sempre que alguém atacava a protecção que o rodeava. Foi nessa luta constante que foi crescendo, aprendendo e sabendo o que seria melhor para si. Sem se dar conta das portas que ele mesmo fechava, ou dos muros que erguia. Apesar de o sorriso esconder a racionalização do que se impunha.
Foi construindo o seu muro entre quatro paredes. Paz, protecção, calor, sensação de segurança. O mundo que ele mesmo criou, para que ninguém o perturbasse além do que se permitia. O passado misturava-se com o presente sempre que pensava que, lá fora, o mundo podia ser demasiado cruel. Se se apercebia do que fazia a si mesmo? Não. Concentrado em que isso era o melhor para si, vivia, respirava, bebia, apenas a partir do que acreditava ser o ideal, o mais correcto, o mais seguro. Não que tivesse grandes traumas de infância, de modo nenhum. Havia tido uma infância feliz. Um pouco turbulenta, mas repleta de alegria, de momentos altos, sonhos concretizados, metas alcançadas. Isso não o impedira de se refugiar naquela mundo que ele havia construído, só seu.
Segurança. Não seria uma falsa sensação de segurança? Não continuava a buscá-la, dia após dia? Não continuava sempre a olhar por cima do ombro, com receio da própria sombra? Falsa era a aparência de segurança que transmitia. Falsa era a dureza que o olhar pretendia revelar. Nem sempre, é certo. Mas em todos os momentos em que a barreira erguida ao redor da sua casa-mundo estava mais forte que nunca.
Por vezes abria uma pequena janela. Não mais que uma clarabóia, por onde entravam alguns raios de sol. Permitia-se abri-la ao fim do dia quando os raios do sol não poderiam ser mais fortes que ele e causar um remoinho de emoções. Era a forma de se controlar a si mesmo, mantendo-o na linha imaginária que desenhara desde o dia em que havia começado a criar esse seu mundo, dentro das quatro paredes nascido.
Porta? Sim, tinha. Mas por ela apenas entrava e saía ele mesmo. Ninguém mais tinha permissão para passar o umbral repleto de detalhes em tons de azul, da cor do mar. Das poucas vezes que o fizera contraíra-se de tal modo que ao fechá-la de novo, desenhava mais um detalhe azul metálico. Frio.
O seu mundo. A sua segurança. O que erguera com as suas mãos e onde não permitia que alguma alteração entrasse, não fosse perturbá-lo no sistema que criara e se enraizara desde muito cedo. Não, não se podia permitir que alguma coisa alterasse o seu mundo tão habilmente construído. Tão arduamente desenhado durante anos. Arquitectado além do sonho e da vontade. Emocionalmente controlado. Porque a sua desconfiança estava do lado de fora da clarabóia, sempre que a abria. A possibilidade de alteração do seu mundo isolado, poderia estar ao abrir uma pequena nesga da porta.
Todos os mundos têm fragilidades. Qual seria a fragilidade do seu? Estaria ele consciente da sua existência? Poderia proteger-se contra o que desconhecia? Ou teria a pretensão de conseguir controlar o que estava fora do alcance dos seus dedos?
Rute Monteiro
2010

Talvez pudesse o tempo parar*
E naquele momento, naquela noite
Apenas o som de partilhas
Música de fundo
Lágrimas no rosto
Apertos de mãos
Há muito que não me permitia chorar
Há momentos em que a força
Está na fragilidade do que se sente
E as fragilidades
São apenas cristais de luz
Que se espalham pelos céus
Levados pela brisa sussurrante
Obrigada por me acalmares.
Beijo.
Sorriso.
Obrigada pela tua sinceridade.
Beijo.
Sorriso.
Fragilidade diluída no tempo
E em palavras. Sentidos.
Não fugaz. Não breve.
É tudo tão fugaz e tão breve.*
Mas a noite estende os seus braços
E agarra quem com ela se deita
Ao longe as águas de um rio
E o silêncio grita ao vento
Esta é só uma noite para partilhar
Qualquer coisa que ainda podemos guardar cá dentro*
Dentro do peito um grito mudo
Palavras de silêncio esculpidas
Desenhadas em rabiscos
Numa folha de sonhos
Ouvem-se risos
Sentem-se as gotas salgadas
Que não deslizam por rostos
Mas escorrem nas veias
Calcadas. Escondidas.
Mas.
Esta é uma noite para me lembrar
Que há qualquer coisa infinita como um firmamento
Um sorriso, um abraço
Que transcende o tempo*
Mãos que se encontram.
Se agarram.
Apertam.
Transmitem força.
Fragilidades.
Rute Monteiro
escrito em 2005
N.A. – * – citações de letras de Mafalda Veiga, em ‘Fragilidades’ e ‘Uma Noite Para Comemorar’
Foto – Aveiro, Ria

Conhecer-te. Nunca foi a ti que quis conhecer, mas tão somente a mim. Conhecer-me a partir de ti, sem te ver, tocar ou escutar. Sem saber, sentia que tocar-te em pensamentos equivaleria a ter-me disposta a ouvir o que eu própria teria para dizer, mesmo que nos silêncios profundos trocados entre a noite e o dia. O passar do tempo trouxe a surpresa da revelação desta que sou agora. Por ti, em ti, contigo, eu conheci aquela que sou hoje. Ou em que me transformei. Atingi a performance que pretendia. Sem mover um músculo que não apenas o cerrar de pálpebras cansadas do labirinto do pensamento.
Foi a imagem que fiz de ti que me envolveu. Cativou e seduziu. Não o olhar real que me era desconhecido, mas apenas aquele que imaginava pelo som das palavras lidas e relidas vezes sem fim. Não o sorriso que escutava diariamente mas aquele que o meu pensamento desenhou como sendo o mais cativante e caloroso alguma vez imaginado. Não foste tu quem me cativou, fui eu e o que imaginei de ti. Se foste como te idealizei? És o que és. O que plausivelmente deverias ser. Mas é nesse sentido que preenches o que pintei a aguarela na tela que ocupa uma parede da minha vida. Sempre foste o que queria que tu fosses, real ou imaginariamente. Na verdade, nunca me importou a verdadeira imagem de ti. Mas a que criei baseada no que a minha vontade ditou. Conhecê-la em nada alterou o que sentia. Ou a falta do sentir que desejavas.
Tu és o que eu não desejava que fosses, somente porque me inquietas. Não gosto de sentir esta inquietude porque não me permite o controle habitual do ser. Nem das palavras, dos sons, dos gestos, dos risos, das lágrimas. Gosto de gerir as minhas emoções, mantendo-as presas nas algemas cuja chave atiro para debaixo de um qualquer livro. Enerva-me saber que pegas nessa chave e as libertas para que, descontroladas, esvoacem por aí. Soltas, perdidas. Fazendo com que eu mesma me perca nos meandros de espaços que desconheço. Saindo de mim, dessa que conheci, ao não querer conhecer-te.
Que digo? Palavras derramam-se sem se saber como nem porquê. Sentidos revolucionam-se sem que os consiga controlar. Deixo-os à deriva?
Rute Monteiro
Foto: Praia Grande, Sintra

- clicar para ouvir Liszt – Sonho de uma Noite de Verão -
Hoje sou eu o piano. De cauda.
Mais não é que um seio estilizado.
Sou mais que seio. Corpo. Inteiro. Teu.
Sentas-te. Olhas-me.
Repousas as tuas mãos neste corpo. Feito desejo. Em cauda.
Docemente, cada dedo teu vai desenhando arabescos na pele.
Do piano feito corpo. Corpo feito piano.
Soltam-se os primeiros gemidos. Não de uma guitarra. Meus. Do piano.
Fechas os olhos enquanto te perdes nos recônditos do meu corpo.
Cálido piano.
Arrancas-me silenciosas melodias num bailado de dedos, mãos. Piano, corpos.
Uma sinfonia de sentidos. Teus. Meus.
Não a 9ª. Essa, de Bethoveen. Esta, a única.
O seu negro. Do piano. Confunde-se com a brancura do manto que me cobre.
Branco e negro. Negro e Branco. Apenas o vermelho carmim dos lábios destoa. Entreabertos do desejo que corre. E escorre. Dos teus dedos enquanto bailam pelas teclas. Ou corpo. O meu.
Vais descobrindo notas nunca antes inventadas. Não são Dó Ré Mi.
Essas que tocas são desconhecidas de qualquer compositor.
Compões tu. Só para mim. Descobertas na pele onde desliza a tua. Dos dedos.
Puxaste o manto que esvoaçou pela janela até ao nosso jardim. De rosas.
Descobres a pele acetinada do piano. Não. Do meu corpo. E teu.
As notas sobem sem que te apercebas. A cauda do piano estremece.
Gemidos rasgam silêncios como uivos de lobos.
Os teus dedos correm velozmente pelas teclas. Pelo meu corpo. Feito piano.
Mudaram de ritmo. Compassada(mente). Que sinfonia de prazer.
Enquanto um suspiro de névoas, sonhos e alma desnudada se ergue naquela sala. Tu continuas a tocar o piano. De cauda. Ou seios estilizados.
Correm dedos apressados de novo. É um mar revolto. Nuvens de tempestade.
É a tua sinfonia. Nossa.
Voa a partitura que tentaste seguir. Ficou perdida no meio da sinfonia (re)inventada.
Abre-se a janela de par em par.
Cortina que se rasga ao tentar alcançar o piano. Meu. Nosso.
As rosas do jardim curvam-se perante a nossa sinfonia. Despetalando-se.
Voam pétalas que cobrem este piano. Meu corpo. Tuas mãos.
O vento uiva lá fora. Acompanha este final apoteótico.
As teclas vibram debaixo dos teus dedos. Já não são brancas e negras. São de todas as cores. Pintadas por ti. Nós.
As estrelas dividiram-se em mil pedaços.
Tornaram-se cristais. Cobriram o jardim.
Soou a última nota.
Fechas o piano.
Repousas a cabeça no seu negro. Na brancura de mim. Corpo. Feito piano. De cauda.
Rute Monteiro
Escrito em 2004
Foto: Modelo: Isabel

Deambulando pelo areal, perdi-me num tempo ilusório.
E sem tempo, a contratempo e contravento,
Encontrei-me a observar pés que delicada e lentamente
Se enterravam em grãos de areia.
Escaldante. Morna. Húmida. Molhada.
Deslizavam cristais em pele ansiosa de um sinal.
De um sussurrar intenso, que penetrasse a carne,
Feito, desfeito e refeito, em silêncios do inalcançável.
O ocaso mirava-me. Parecia sorrir.
Ilusão de uns olhos semicerrados. Cansados. Ansiosos.
Era um esgar triste de despedida.
Detive-me perante a imensidão do azul.
Agora Amarelo. Laranja. Vermelho. Violeta.
Ergui um braço e ondulando mãos em acenos
Sentindo a brisa por entre dedos
Despedi-me dos beijos serenos do sol.
E sentei-me na areia. Perdera a calidez.
Mas apoderara-se de um corpo
Que buscava um tempo perdido. Ansiado.
Esperei a onda que em reverência viria beijar-me.
Ergueram-se ventos de Norte e Sul,
Lutando pelo espaço diáfano acima de sentidos.
Ouvia-se um rugido furioso, feito vulcão em erupção
Uma canção ondulante soltava gemidos de liberdade.
Pálpebras descaíram cobrindo visões.
E entre sons de marés e ventos
Ouvi o silêncio.
Sussurrava que o tempo me havia encontrado.
Elevei o corpo e alcancei-te com o olhar
Caminhavas sobre as ondas. Calmas.
Que te transportavam com a doçura dos anjos. Sorrias.
Há muito que o Sol repousava na linha recta definida
Tão distante quanto os meus olhos alcançavam.
E enquanto a Lua iluminava as areias da praia
Aproximámos corpos. Olhos sentiram almas, penetrando-as.
Leram pensamentos feitos um só. Uma só vontade.
Apenas um desejo. Teu. Meu. Nosso.
Os cristais de várias cores, já não escaldantes.
Mas mornos, frios
Foram leito de corpos que suavemente deslizaram
Enrolando e desenrolando emoções, fragrâncias
Em aconchego perpetuado no tempo
Desnudaram-se emoções,
E os ventos escutavam silenciosamente
Aprendiam o que era o entendimento
Comunhão de corpos. Sensações. Pensamentos. Desejos.
E enquanto a brisa da noite roçava peles de corpos enlaçados
As areias aqueciam de paixões que se derretiam
Era a lava do vulcão que finalmente se libertava
Descendo a encosta imaginada do encontro a dois
Lava que se espalhava em veias de dois seres
Transformados num único sentir.
Uma mesma luz. Um só corpo.
Os ventos de Norte e Sul partiram
O mar havia adormecido
Embalados por suspiros de amantes.
E quando o nada das palavras
E o tudo de sentires
Se estenderam sobre a praia dos amantes
A lua enviou a sua estrela mais fiel
Para cobrir os corpos que se recortavam
Nas sombras da noite.
Saudando o encontro ansiado.
Rute Monteiro
Foto: Praia da Barra, Aveiro
Lamento.
Ela sabia do amor que ele lhe tinha.
Mas não podia mudar o que sentia. Ou não sentia.
Não se pode mudar o coração.
Aprendera isso tão cedo.
Olhava o seu reflexo no espelho. As suas mãos finas abriram o peito.
Arrancaram o coração para perguntar:
A quem pertences, afinal?
Apenas o bater descompassado lhe respondeu.
Lamento.
Escorres feito lágrima imaginada. A tua.
Adivinhas dedos trémulos. Os teus?
Fruto da incapacidade de mudar.
Ela não sabia como lhe dizer.
Não se pode mudar o coração.
Não se podem mudar sentimentos. Ou a falta deles.
Lamento.
Deixou-lhe apenas uma palavra.
Não o quis ferir.
Mesmo sabendo que o havia feito.
O tempo tudo apaga. Sabia isso.
Não se pode mudar o coração.
Ela apenas queria ser feliz. Seguir o seu caminho.
Num sorriso desejou-lhe a ele toda a felicidade.
Lamento.
Disse-lhe ela mais uma vez.
E partiu.
Rute Monteiro
(retirado algures de um passado longínquo… para um presente que se repete…)

O Sol descia sobre o horizonte quando ela saiu de casa.
Não suportava a sua ausência. As paredes nuas dos risos de paixão.
O ar irrespirável demasiado preenchido de vazios dos sussurros que não se haviam ouvido nesses dias.
As janelas já não abriam há algumas semanas, na triste indolência daqueles dias de Verão.
Não podia deixar entrar o frio das horas sem sentir a presença dele.
Sentia-o em si todos os dias quando acordava com aquele som tão familiar que a deixava de sorriso no rosto.
Ele. E as suas palavras breves a dizer que estava ali. Pensava nela.
Tocava a estereofonia.
Es tu nombre mi único consuelo cuando con ternura lo recuerdo.
Sentada em frente a um caderno, tentava em vão escrever o que lhe queria dizer.
Havia prometido que lhe escreveria.
Mas, a saudade deixava-a naquela tepidez eterna.
Deixava que os dias a empurrassem na direcção daquele dia em que ele regressaria.
Estava perto.
Agora, os dias passavam-se em atropelo de horas, minutos, segundos.
Hoje sentira aquela necessidade imperiosa de sair e saudar a Mãe Natureza.
Parou junto àquele extenso arvoredo.
Seguiu o som que a chamava incessantemente e foi encontrar um pequeno ribeiro.
E umas cristalinas e mareantes águas que a fizeram sentar e descansar.
O corpo e a alma.
Si confundes tu cuerpo con tu alma es que tas enamorada.
Sentia-o perto na longa distância entre eles marcada.
E sentira-o longe.
Na sombra tranquila daquela tarde, uma gota de saudade desceu pela face, indo morrer nos lábios que sussurravam seu nome.
Os dias eram apenas sucessões de horas de espera. Por ele.
Olhava o Sol que se perdia no horizonte.
E esperava.
Com a saudade por companheira.
Rute Monteiro
Foto: Guincho, Cascais

Quis começar hoje sem saber por onde.
Pensei chamar de começo, mas não seria demasiado vulgar para quem já não o está a fazer pela primeira nem sequer segunda ou terceira vez?
Início?
Tudo é um início. Cada momento começa, dura e termina. Por mais curto que seja o seu tempo de vida.
Talvez um regresso.
Retornar não ao que fui, mas à liberdade de escrever para meu prazer, sem amarras. Sem máscaras. Apenas eu.
Máscaras? – perguntar-se-á alguém.
Sim e não. Não usamos todos as nossas máscaras dia após dia? Quando sorrimos e no peito queimam as lágrimas. Quando enfrentamos os obstáculos com uma garra que nem sabemos onde a vamos buscar, mas que nos faz dar um passo para a frente. E outro. Outro mais.
Agora serei aquela que se despoja de algumas dessas máscaras protectoras e se deixa enrolar nas ondas do que me move. Palavras. Fotografia. Dançando entre elas, entrelaçando dedos, apertando as letras num abraço, rodopiando as imagens que capto. Danço.
É entre essas minhas três paixões que me desenlaço e me revelo.
Para ilustrar deixo a quarta paixão: o Mar. Sem o qual não conseguiria viver. É com ele que desabafo. Com ele grito. Sorri-me e faz-me feliz. Respiro o seu ar e encho os pulmões da sua força. Sigo com ele.
Rute Monteiro
Foto: Praia Grande, Sintra